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MERITOCRACIA — O OLHAR DE UM DIVERGENTE

Atualizado: 27 de jul.

Do reconhecimento à liberdade de escolha

Por Manuel Silva

Durante grande parte da minha vida pensei que a meritocracia funcionava de uma forma relativamente simples: trabalhávamos, demonstrávamos competência, assumíamos responsabilidades, produzíamos resultados e, algures no percurso, alguém reconheceria o nosso valor.

Não deixei de acreditar no mérito.

O que mudou foi a forma como o compreendo.

Talvez porque a vida me tenha permitido observá-lo de lugares muito diferentes. Fui militar. Aprendi disciplina, hierarquia, responsabilidade e sentido de missão. Mais tarde decidi passar à reserva, entrei no mundo empresarial, criei empresas, fiz negócios, liderei pessoas, tomei decisões certas e outras que hoje tomaria de forma diferente.

Acertei. Errei. Perdi. Recomecei.

E continuo a aprender.

Foi precisamente essa mistura de disciplina militar, experiência empresarial e paixão pelo desenvolvimento pessoal que me levou a fazer uma pergunta que, hoje, considero muito mais interessante do que simplesmente perguntar quem merece mais:

O que fazemos com aquilo que a vida colocou nas nossas mãos?

Porque nem todos recebemos as mesmas cartas.

Não partimos do mesmo lugar. Não tivemos as mesmas oportunidades, educação, relações, saúde ou circunstâncias. Há acontecimentos que não escolhemos, outros que provocamos e decisões, umas nossas, outras de terceiros que mudam completamente o nosso caminho.

Por isso nunca consegui acreditar verdadeiramente na frase “quem quer consegue”.

É demasiado simples.

Mas também nunca consegui aceitar o oposto: acreditar que, porque não controlamos tudo, pouco ou nada depende de nós.

Entre estes dois extremos existe um território enorme.

É nesse território que quero viver.

O território das nossas perceções, das nossas dependências emocionais, das decisões que ainda podemos tomar e, principalmente, das ações que escolhemos assumir.

Recentemente comecei a construir a minha própria visão da meritocracia.

E filo comparando-o em três dimensões:

Compromisso. Custo. Clareza.

I — O COMPROMISSO

O mérito começa na postura que escolhemos perante a vida

Durante muitos anos associei compromisso a cumprir. A vida militar ensinou-me a fazê-lo: disciplina, sentido de dever, respeito pela palavra dada e capacidade de continuar mesmo quando a motivação desaparece.

Continuo profundamente grato por essa aprendizagem.

Mas compreendi uma diferença fundamental: cumprir não é o mesmo que escolher.

Percebi-a quando decidi passar à reserva. Tinha uma carreira, segurança, experiência e uma identidade profissional construída. Mas surgiu uma pergunta que me acompanha até hoje: “É isto que quero continuar a construir?”

Não sabia exatamente o que esperar depois. Tinha dúvidas. Mas percebi que, antes de ter todas as respostas, precisava de tomar e assumir uma decisão.

Foi nesse preciso momento que o compromisso mudou de significado para mim. Deixou de ser apenas cumprir uma obrigação e passou a significar assumir responsabilidade por uma escolha.

Comecei também a perceber que muitas das nossas escolhas estão condicionadas pelo lugar emocional em que nos encontramos. Necessitamos e procuramos afeto: queremos pertencer e sentir que somos aceites. Depois o reconhecimento: queremos que os outros vejam o nosso valor. A seguir vem a recompensa: queremos que o que fazemos tenha retorno.

Nada disto está errado. Eu próprio passei e continuo a passar por estes lugares.

Mas chega um momento em que começamos a fazer outra pergunta:

“O que estou a fazer tem sentido para mim?”

Entramos no Sentido.

E talvez mais tarde apareça uma pergunta ainda mais exigente:

“O que ficará depois de mim?”

Chegamos ao Legado.

E estes são os degraus da Escala da Maturidade com base na Teoria da Permissão:

Afeto → Reconhecimento → Recompensa → Sentido→ Legado.

Não se trata de abandonar os primeiros níveis. Continuamos a precisar de relações, reconhecimento e recompensa. Trata-se de perceber que, com o tempo, precisamos de caminhar na direção de uma "razão maior".

Existe outra escala que considero igualmente importante: a nossa postura perante a realidade.

Podemos reclamar, justificar, questionar, propor ou agir. Já passei por todas . Já reclamei. Já encontrei excelentes justificações. Já atribuí demasiado peso às circunstâncias. Algumas dessas razões eram verdadeiras, mas aprendi: ter razão não resolve necessariamente o problema.

Foi por isso que comecei a trocar a pergunta: “Porque é que isto me está a acontecer?”, por: “O que posso fazer com isto?”

Foi uma pequena mudança de palavras e uma enorme mudança de postura.

Porque a perceção influencia a decisão, e a decisão orienta a ação.

É assim que interpreto a Escala da Postura:

Reclamar identifica o que está errado. Justificar explica porque permanecemos parados. Questionar abre possibilidades. Propor cria alternativas. Agir assume responsabilidade.

Uma escala ajuda-me a perceber o que procuro.

A outra obriga-me a confrontar o que faço.

E talvez seja precisamente aí que começa o mérito que hoje me interessa: não naquele que espera eternamente ser escolhido, mas naquele que reconhece aquilo que não controla e assume responsabilidade pelo próximo passo que ainda lhe pertence.


II — O CUSTO

Algumas das decisões mais caras são aquelas que adiamos

Há uma frase que esteve presente em algumas das decisões mais caras que tomei:

“Ainda podemos esperar um pouco mais.”

Durante muito tempo interpretei-a como prudência.

Às vezes era.

Noutras vezes, percebi mais tarde, era apenas o medo com uma excelente justificação racional.

Aprendi isto sobretudo enquanto empresário. Não nos livros, mas na realidade. Decidindo, errando, corrigindo e, em algumas situações, demorando demasiado tempo a tomar decisões que sabia serem necessárias.

Foi assim que compreendi: não decidir também é decidir.

E esse "tempo" vem sempre acompahado de uma conta.

Normalmente pensamos no custo em dinheiro. Mas algumas das mudanças mais importantes têm um preço muito mais íntimo. Escolher implica renunciar. Aprender obriga-nos a admitir que ainda não sabemos. Crescer pode exigir que abandonemos uma versão de nós próprios, com a qual convivemos durante anos.

Quando decidi passar à reserva, não deixei apenas uma atividade profissional.

Deixei uma identidade conhecida.

Eu era militar. Existia um percurso, uma estrutura, segurança e um lugar definido. Do outro lado não havia garantias.

Essa incerteza tinha um preço.

Mas permanecer também tinha.

Foi então que comecei a compreender algo que hoje considero central:

a liberdade não elimina o custo; permite-nos escolher qual o custo que estamos dispostos a assumir.

Também aqui a Escala da Maturidade ajuda a compreender as nossas decisões. Quando procuramos Afeto, receamos a rejeição. Quando procuramos Reconhecimento, preocupa-nos a forma como somos vistos. Quando procuramos Recompensa, queremos saber o que receberemos.

No Sentido, porém, a pergunta muda:

“Vale a pena dedicar parte da minha vida a isto?”

E no Legado: “Aquilo que estou a construir deixará algum valor para além de mim?”

Estas perguntas começaram a interessar-me cada vez mais.

Continuo a gostar de resultados. Valorizo reconhecimento e recompensa. Seria pouco honesto dizer o contrário.

Mas deixaram de ser suficientes.

Também aprendi que cada postura tem o seu preço. Reclamar pode proporcionar algum alívio. Justificar pode proteger-nos da responsabilidade. Mas podemos permanecer anos nestes lugares sem transformar nada.

A mudança começa quando perguntamos:

“O que depende de mim?”

Depois podemos propor uma alternativa.

E finalmente temos de agir.

Foi por isso que comecei a fazer duas perguntas perante decisões importantes:

“Quanto me poderá custar avançar?”

e

“Quanto me poderá custar permanecer exatamente onde estou?”

Preciso das duas.

Não acredito em mudar apenas por mudar. Nem todas as oportunidades merecem um sim e nem todas as portas devem ser atravessadas.

Maturidade também é saber dizer não.

Mas quero que o meu “não” seja uma decisão consciente e não, apenas, medo disfarçado de prudência.

Também não acredito na glorificação do sacrifício. Prejudicar ou destruir a saúde, as relações ou a qualidade de vida, não prova mérito.

O custo inevitável do crescimento é outro: transformação.

Alguma coisa terá de mudar. "E, quando uma coisa muda, tudo muda".

Às vezes, uma prioridade. Outras, uma crença, mas muitas vezes a nossa própria postura.

É também desta forma que olho para o Projecto CdN® Evolution: não como promessa, mas como possibilidade. Uma organização pode criar condições, dispor acompanhamento e mostrar caminhos.

Mas existe uma decisão que nunca conseguirá tomar pela pessoa.

A de avançar.

Hoje, quando alguém me diz “Quero mais”, há uma pergunta que faço:

“O que está disposto a transformar para construir aquilo que diz querer?”

Porque desejar é fácil.

Escolher custa.

Agir expõe-nos.

E crescer transforma-nos.

Mas ficar durante anos numa vida que já não corresponde ao que acreditamos também tem um preço.

Aprendi que, por vezes, é precisamente esse o preço mais alto.


III — A CLAREZA

Talvez a liberdade comece quando percebemos quem está a escolher dentro de nós

O Compromisso aprendi cedo.

O Custo aprendi muitas vezes através dos erros.

A Clareza demorou mais.

E estou ainda a aprendê-la.

Quando era mais novo, o sucesso parecia relativamente simples de definir: carreira, responsabilidade, empresas, resultados, reconhecimento.

Continuo a valorizar tudo isso.

Mas hoje existe uma pergunta que me acompanha:

“Para quê?”

Para que quero crescer?

Para que quero liderar?

Para que quero ganhar mais?

E, sobretudo, para que quero utilizar os anos que ainda tenho pela frente?

Esta pergunta mudou a minha ideia do que é ser livre.

Durante muito tempo pensei que liberdade era poder fazer aquilo que queria.

Hoje penso de outra forma:

liberdade é poder escolher conscientemente aquilo que merece uma parte da nossa vida.

E isso exige clareza.

Porque nem todas as nossas decisões são tão livres quanto gostamos de imaginar.

Por vezes decidimos porque precisamos de aprovação. Outras porque queremos reconhecimento. Porque temos medo de desiludir alguém. Porque queremos provar alguma coisa. Porque nos comparamos. Ou simplesmente porque continuamos presos à pessoa que fomos.

É aqui que as dependências emocionais ganham uma enorme importância.

No Afeto, preciso que me aceitem.

No Reconhecimento, preciso que vejam o meu valor.

Na Recompensa, quero retorno pela minha contribuição.

Mas no Sentido surge uma pergunta diferente:

“Porque estou a fazer isto?”

E no Legado: “O que ficará depois de mim?”

Talvez amadurecer seja também esta passagem progressiva do “o que vou receber?” para “o que posso construir?” e, finalmente, “o que posso deixar?”

A Escala da Postura completa o caminho.

Enquanto reclamo, grande parte da solução está fora de mim. Quando justifico, encontro razões para não avançar. Quando pergunto, começo a procurar possibilidades. Quando proponho, assumo autoria. Quando ajo, transformo decisão em realidade.

E há uma pergunta que hoje procuro fazer a mim próprio perante decisões importantes:

"O que está realmente a fazer as escolhas dentro de mim?”

É o medo?

É a necessidade de reconhecimento?

É a comparação?

É apenas a segurança?

Ou existe clareza suficiente para eu conseguir dizer:

“É isto que escolho.”

Hoje compreendo melhor a minha decisão de passar à reserva.

Na altura pareceu-me essencialmente uma mudança profissional.

Agora vejo-a como algo diferente.

Foi um exercício de autoria.

Não sabia exatamente o que encontraria do outro lado.

Mas dei-me permissão para descobrir.

Talvez tenha sido aí que a liberdade começou ter para mim outro significado.

Não a liberdade de manter todas as portas abertas.

Mas a liberdade de escolher qual delas vale a pena atravessar.

É também assim que olho para o Projecto CdN® Evolution. Uma oportunidade deve ser exatamente isso: uma possibilidade. Não dizer às pessoas o que devem desejar nem prometer-lhes aquilo que vão alcançar.

Pode abrir uma porta.

Depois cada pessoa terá de decidir se quer atravessá-la.

Talvez esteja à procura de Reconhecimento. Talvez de Recompensa. Talvez procure um Sentido. Ou talvez tenha chegado a uma fase da vida em que começa a pensar no Legado.

Tudo isso é legítimo.

O essencial é compreender porquê.


A MERITOCRACIA EM QUE HOJE ACREDITO

Depois deste percurso, já não vejo meritocracia como uma fórmula em que esforço produz automaticamente sucesso.

A vida ensinou-me que não funciona assim.

Não controlamos todas as circunstâncias. Não começamos todos no mesmo lugar. Existem desigualdades, perdas, oportunidades que surgem e outras que nunca aparecem.

Mas também não aceito que isso nos retire toda a responsabilidade sobre a parte da vida que ainda podemos escolher.

Para mim, é aí que começa uma meritocracia mais humana.

Na capacidade de compreender as nossas dependências emocionais.

De questionar as perceções através das quais interpretamos a realidade.

De assumir as decisões que ainda nos pertencem.

E de transformar essas decisões em ações.

Por isso hoje vejo uma sequência muito simples:

Compreender → Questionar → Escolher → Agir → Construir.

Primeiro compreendo onde estou.

Depois questiono onde quero estar.

Escolho o meu caminho.

Dou o primeiro passo.

E construo, o que decidi fazer e não apenas ficar à espera que acontecesse.


Compreender é o princípio. Antes de decidir, preciso de perceber onde estou, o que tenho, o que me falta e quais são realmente as possibilidades.

Questionar é recusar viver apenas porque “sempre foi assim”. É perguntar: Isto ainda faz sentido para mim? Existe outra possibilidade? Estou aqui porque escolhi ou porque me habituei? Questionar não é duvidar de tudo. É dar espaço ao pensamento antes da decisão.

Escolher é o momento da liberdade. Depois de compreender e questionar, chega uma altura em que é preciso decidir.

Agir transforma a escolha em realidade. Podemos compreender perfeitamente, fazer perguntas extraordinárias e tomar uma decisão brilhante. Se nada fizermos, nada muda. A ação é o momento em que deixamos de pensar na possibilidade e começamos a experimentá-la.

Construir é diferente de simplesmente agir. Uma ação pode acontecer uma vez. Construir exige continuidade. É repetir, aprender, corrigir, melhorar, persistir e transformar pequenas ações em algo que antes não existia. Agir inicia. Construir consolida.


E vejo também duas escalas que se encontram no mesmo ponto.

Na Maturidade:

Afeto → Reconhecimento → Recompensa → Sentido → Legado.

Na Postura:

Reclamar → Justificar → Questionar → Propor → Agir.

Uma fala daquilo que procuramos.

A outra daquilo que fazemos perante aquilo que encontramos.

Quando ambas amadurecem, algo muda.

Deixamos progressivamente de perguntar apenas:

“O que é que a vida me deve?”

E começamos a perguntar:

“O que posso fazer com a vida que ainda tenho?”

Talve seja esta a pergunta que melhor resume o meu percurso.

Fui militar e aprendi disciplina.

Tornei-me empresário e aprendi que as decisões têm consequências — e que a ausência de decisão também tem.

Liderar pessoas ensinou-me que não conseguimos escolher por ninguém.

E o desenvolvimento pessoal ensinou-me talvez a lição mais importante de todas:

a liberdade começa dentro de nós muito antes de aparecer à nossa volta.

Hoje já não quero apenas chegar mais longe.

Quero perceber para quê.

Quero escolher melhor.

Quero utilizar aquilo que aprendi.

Quero continuar a construir.

E quero, um dia, poder olhar para trás e sentir que alguma coisa ficou depois de mim.

Não necessariamente um cargo.

Não apenas empresas.

Nem sequer aquilo que conquistei.

Talvez ideias.

Talvez pessoas que acreditaram mais em si próprias.

Talvez portas que ficaram abertas porque alguém decidiu abri-las primeiro.

Há muitos anos tomei a decisão de atravessar uma dessas portas.

Não sabia o que encontraria.

Ainda bem.

Se tivesse esperado por certezas absolutas, talvez nunca tivesse dado o passo.

Hoje compreendo que a verdadeira liberdade de escolha não consiste em saber exatamente o que existe do outro lado.

Consiste em conhecer suficientemente bem aquilo que somos, aquilo que procuramos e aquilo em que acreditamos para podermos dizer:

“Esta é a porta que escolho atravessar.”

Depois disso, continua a existir risco.

Continua a existir custo.

Continua a existir incerteza.

Mas existe algo diferente.

A decisão é nossa.

E talvez seja aí que termina a dependência, começa a responsabilidade e nasce aquilo que hoje entendo por verdadeira meritocracia.

Não receber simplesmente aquilo que julgamos merecer.

Mas termos a oportunidade, a maturidade e a postura para construir aquilo que estamos dispostos a assumir.

No princípio da vida queremos que nos escolham.

Com o tempo aprendemos a escolher.

E talvez, quando amadurecemos verdadeiramente, percebamos que o maior legado que podemos deixar é ajudar outros a descobrir que também podem escolher.

Essa é, para mim, a Liberdade de Escolha.

Manuel Silva

Militar por formação. Empresário por escolha. Divergente por convicção.

Coordenador do Projecto CdN® Evolution

Fundador do Manual da Liberdade®

 
 
 

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