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Aprendi a cumprir antes de aprender a escolher

26 de set.
2 min de leitura

16 de janeiro de 1984.

Entrei.

Não houve deliberação longa. Não houve lista de prós e contras. Havia uma data, uma ordem e eu apresentei-me na Unidade.

Tinha vinte anos.

O que aprendi nos primeiros dias não estava em nenhum manual. Estava no silêncio das 5h30 da manhã. No frio. Na formação. Na voz de alguém que dizia quando te podias mover.

Cumprir.

Essa foi a primeira lição.

Não porque fosse bonita. Não porque fizesse sentido. Mas porque era o que havia. E quando é o que é, ou cumpres ou ficas para trás.

Fiz o que me mandaram.

Durante anos.

E durante muito tempo achei que isso tinha sido uma perda. Que tinha dado anos de mim a um sistema que não me perguntou nada.

Estava errado.


O que a vida militar me deu não foi obediência cega. Foi qualquer coisa muito mais difícil de explicar.

Deu-me a capacidade de agir sem precisar de condições perfeitas.

Não precisas de estar motivado para cumprir. Não precisas de acreditar para avançar. Não precisas de perceber tudo para continuar.

Isso parece simples.

Não é.

A maior parte das pessoas que conheço está parada. Não por falta de talento. Não por falta de oportunidade. Por falta de disciplina para agir quando não têm vontade.

Eu aprendi isso fardado.


Durante anos confundi duas coisas.

A disciplina que nos impõem.

A disciplina que escolhemos.

São parecidas por fora. Por dentro são completamente diferentes.

A primeira aprendi cedo. A segunda demorou décadas.

E foi a segunda que me construiu.

Não o exército. Não o sistema. Não a hierarquia.

Eu.

Quando finalmente percebi que podia escolher cumprir, o cumprir tornou-se outra coisa.

Tornou-se poder.


Há uma pergunta que ficou comigo muito depois de sair do exército.

Não a fiz em 1984. Não a fiz nos anos seguintes.

Fi-la muito mais tarde. Quando tudo o que tinha construído desabou.

A pergunta não é sobre o exército. É sobre mim.

O que é que eu escolhi de verdade? E o que é que eu simplesmente cumpri porque era o que esperavam de mim?

Não é uma pergunta cómoda.

É a pergunta certa.

Em dezembro, o livro onde essa pergunta tem resposta chega às livrarias.

Na semana que vem: o que acontece quando começas a questionar o que te ensinaram a não questionar.




 
 
 

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